A história de Santa Gertrudes, da argila e das primeiras telhas à Capital Nacional da Cerâmica de Pisos e Revestimentos
Existe uma cidade no interior de São Paulo que talvez não apareça com frequência nas grandes manchetes nacionais.
Não é uma metrópole.
Não possui milhões de habitantes.
Não é conhecida por arranha-céus, grandes aeroportos ou monumentos mundialmente famosos.
Mas existe um setor em que o nome de Santa Gertrudes atravessa fronteiras.
Quando o assunto é cerâmica para pisos e revestimentos, a cidade ocupa uma posição extraordinária.
E para entender por que uma pequena cidade paulista se tornou referência em uma indústria de alcance internacional, é preciso voltar no tempo — muito antes de existirem os grandes formatos, os porcelanatos marmorizados, as superfícies digitais e as coleções assinadas por designers.
É preciso começar pela terra.
Pela argila.
E por uma história que começou com telhas.
Antes do porcelanato, vieram as telhas
A história da indústria cerâmica na região de Santa Gertrudes começou nas primeiras décadas do século XX.
Segundo a ASPACER — Associação Paulista das Cerâmicas de Revestimento — as primeiras famílias começaram a se fixar na cidade entre 1918 e 1930, período em que também surgiram as primeiras indústrias cerâmicas.
Naquele momento, a produção era muito diferente daquela que conhecemos hoje.
Fabricavam-se principalmente telhas paulistas e francesas.
Com o passar do tempo, vieram o chamado lajotão colonial, os pisos e, posteriormente, os revestimentos cerâmicos.
A disponibilidade de uma matéria-prima fundamental ajudou a explicar essa transformação: a argila.
A combinação entre quantidade, qualidade e facilidade de mineração criou condições favoráveis para que a atividade cerâmica se desenvolvesse e se tornasse progressivamente mais importante para a economia local.
É uma história que merece ser lembrada porque ajuda a compreender uma característica fundamental da indústria cerâmica: antes de ser uma indústria de tecnologia, ela é uma indústria profundamente ligada ao território.
Quando a geologia encontra a indústria
A região de Santa Gertrudes está associada à Formação Corumbataí, uma formação geológica reconhecida pela presença de matérias-primas utilizadas na fabricação de produtos cerâmicos.
Documentos municipais destacam justamente a riqueza do subsolo regional e a presença de argilas utilizadas na produção cerâmica.
Essa característica geológica ajudou a transformar uma atividade inicialmente ligada à produção de materiais básicos de construção em uma cadeia industrial muito mais complexa.
É interessante pensar nisso.
Uma pessoa olhando para um porcelanato pronto enxerga uma superfície.
Pode enxergar mármore.
Madeira.
Pedra.
Cimento.
Granito.
Pode enxergar uma cor, uma textura ou um desenho.
Mas existe uma história muito maior escondida naquela superfície.
Existe uma matéria-prima retirada do solo.
Existe preparação.
Existe tecnologia.
Existe energia.
Existe desenvolvimento industrial.
Existe controle de qualidade.
Existe design.
Existe logística.
E existe uma cadeia inteira de profissionais trabalhando para que aquela peça finalmente chegue a uma obra.
O porcelanato é o resultado final de uma história que começa muito antes da loja.
De telhas a pisos e revestimentos
A evolução da cerâmica brasileira não aconteceu de uma hora para outra.
A própria história da indústria de revestimentos cerâmicos no Brasil mostra uma transformação gradual.
As primeiras fábricas estavam ligadas à produção de tijolos, blocos e telhas de cerâmica vermelha. Com o desenvolvimento do mercado, começaram a surgir produtos como ladrilhos, azulejos e pastilhas.
A partir das décadas seguintes, novas tecnologias, crescimento da construção civil e aumento da demanda estimularam a expansão da indústria.
Santa Gertrudes acompanhou — e participou — dessa transformação.
O que começou com produtos tradicionais de cerâmica passou progressivamente para pisos, revestimentos e, posteriormente, porcelanatos cada vez mais sofisticados.
A transformação tecnológica pode ser percebida também na própria trajetória de empresas da região.
A história da Villagres, por exemplo, remonta a 1922, quando a família fundadora começou com a fabricação de telhas francesas. Décadas depois, a trajetória passou por produtos extrudados, como a lajota colonial, pisos cerâmicos prensados e, posteriormente, porcelanatos.
É difícil encontrar uma demonstração mais clara da transformação da indústria.
A mesma região que aprendeu a fabricar telhas passou, ao longo das décadas, a produzir revestimentos capazes de reproduzir visualmente alguns dos materiais mais sofisticados utilizados pela arquitetura.
A indústria que aprendeu a reproduzir a natureza
Existe algo fascinante na evolução dos revestimentos cerâmicos.
A indústria não se limitou a fabricar um produto funcional.
Ela passou a interpretar a natureza.
Hoje, uma superfície cerâmica pode reproduzir visualmente características de mármore, madeira, pedra, cimento, granito e inúmeras outras referências.
Isso só foi possível graças à combinação entre conhecimento cerâmico, tecnologia industrial, desenvolvimento de esmaltes, impressão digital, design e controle de processos.
O resultado é uma mudança profunda na arquitetura.
O consumidor pode buscar a aparência de um material natural e, ao mesmo tempo, encontrar uma solução industrial desenvolvida especificamente para aplicações em pisos e revestimentos.
A cerâmica deixou de ser apenas uma alternativa.
Passou a ser também uma linguagem estética.
Santa Gertrudes e a formação de um grande polo industrial
Mas existe outro aspecto importante nessa história.
Não estamos falando apenas de uma cidade.
Estamos falando de uma região industrial.
O Polo Cerâmico de Santa Gertrudes envolve municípios como Santa Gertrudes, Cordeirópolis, Rio Claro, Ipeúna, Limeira, Iracemápolis e Piracicaba.
A ASPACER apresenta essa região como o maior polo cerâmico das Américas em produção e o terceiro maior do mundo.
Essa dimensão regional é fundamental para compreender o fenômeno.
Uma indústria desse porte não depende apenas das fábricas.
Ao redor dela existe uma cadeia formada por mineração, transporte, energia, máquinas, equipamentos, insumos, tecnologia, laboratórios, profissionais especializados, logística, comércio e serviços.
Ou seja: um piso produzido em uma fábrica movimenta muito mais gente do que aquela que aparece na linha de produção.
Uma indústria que mudou a economia da região
O crescimento da cerâmica transformou a relação entre os municípios e a indústria.
Empregos foram criados.
Empresas foram instaladas.
Profissionais passaram a se especializar.
Fornecedores surgiram.
Novos serviços apareceram.
E a atividade industrial passou a fazer parte da identidade econômica da região.
Em publicação recente, a ASPACER destacou o papel da indústria cerâmica na geração de empregos, renda e desenvolvimento regional. A entidade também aponta a presença de dezenas de empresas e uma cadeia produtiva de grande dimensão no Polo Cerâmico de Santa Gertrudes.
É por isso que chamar Santa Gertrudes simplesmente de “cidade das cerâmicas” talvez seja pouco.
A cerâmica não é apenas uma atividade econômica entre tantas outras.
Ela ajudou a construir a identidade industrial da região.
A tecnologia mudou tudo
Uma das características mais interessantes da indústria cerâmica brasileira é que ela não segue um único modelo tecnológico.
A ANFACER explica que existem diferentes polos produtivos no país e diferentes tecnologias de fabricação.
Em São Paulo, destacam-se os polos de Mogi Guaçu e Santa Gertrudes. Enquanto Mogi Guaçu utiliza predominantemente a tecnologia de via úmida, a maioria das empresas de Santa Gertrudes utiliza a tecnologia de via seca.
Pode parecer uma informação excessivamente técnica.
Mas ela revela algo importante.
A produção cerâmica moderna envolve escolhas tecnológicas, conhecimento de matérias-primas, formulações, equipamentos e processos industriais.
Não existe apenas “argila entrando de um lado e piso saindo do outro”.
Existe ciência.
Existe engenharia.
Existe pesquisa.
Existe desenvolvimento.
E é justamente essa combinação que permitiu ao polo evoluir de produtos tradicionais para revestimentos cada vez mais sofisticados.
O porcelanato é apenas o começo da conversa
Quando falamos em porcelanato, normalmente pensamos no produto acabado.
Mas o universo dos revestimentos é muito maior.
Existem diferentes tipos de pisos e revestimentos, formatos, acabamentos, superfícies, características técnicas e possibilidades de aplicação.
Existem produtos para ambientes residenciais.
Para áreas comerciais.
Para grandes empreendimentos.
Para áreas externas.
Para espaços de alto tráfego.
Para projetos arquitetônicos sofisticados.
Para pequenas reformas.
E essa diversidade é uma das razões pelas quais o setor permanece em constante transformação.
A indústria não está simplesmente fabricando mais peças.
Está desenvolvendo novas possibilidades para a arquitetura.
Quando uma cidade recebe um título nacional
Toda essa trajetória acabou produzindo também um reconhecimento oficial.
Em 7 de junho de 2018, o Estado de São Paulo promulgou a Lei nº 16.751, que declarou o Município de Santa Gertrudes “Capital da Cerâmica de Revestimento” no Estado. A lei teve origem no Projeto de Lei nº 1.477/2015.
Seis anos depois, veio um reconhecimento ainda maior.
Em 28 de maio de 2024, foi sancionada a Lei Federal nº 14.869, declarando Santa Gertrudes Capital Nacional da Cerâmica de Pisos e Revestimentos.
O texto foi sancionado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva e publicado no Diário Oficial da União em 29 de maio de 2024.
A história legislativa desse reconhecimento começou ainda em 2016.
O Projeto de Lei nº 5.325/2016 foi apresentado na Câmara dos Deputados em 18 de maio daquele ano pelo então deputado federal Ricardo Izar. O projeto tinha exatamente a finalidade de declarar Santa Gertrudes Capital Nacional da Cerâmica de Pisos e Revestimentos.
Depois de anos de tramitação, a proposta foi transformada na Lei nº 14.869/2024.
Mais do que um título, esse reconhecimento oficial ajuda a registrar uma realidade construída ao longo de décadas.
Uma pequena cidade em um mapa muito maior
Talvez esse seja o aspecto mais surpreendente de toda essa história.
Santa Gertrudes não precisou se transformar em uma metrópole para alcançar relevância internacional em seu segmento.
A cidade construiu uma especialização.
Desenvolveu uma vocação industrial.
Atraiu empresas.
Formou uma cadeia produtiva.
Acumulou conhecimento.
Acompanhou a evolução tecnológica.
E transformou uma característica natural do território — a disponibilidade de matérias-primas adequadas — em uma indústria de grande escala.
Esse processo é uma das demonstrações mais interessantes de como território, conhecimento, empreendedorismo e indústria podem transformar completamente a trajetória de um município.
Do chão de terra ao chão das casas
Existe uma ironia bonita nessa história.
A matéria-prima está no chão.
E o produto final também.
Mas entre uma coisa e outra existe mais de um século de transformação.
A argila retirada do subsolo passa por processos industriais e tecnológicos até se transformar em uma peça que pode terminar no chão de uma residência, na parede de um restaurante, na fachada de um empreendimento ou no projeto de um arquiteto.
O que parece simples para quem observa o produto acabado é, na verdade, resultado de uma cadeia extraordinariamente complexa.
É por isso que um piso merece ser olhado de outra maneira.
Ele não é apenas um acabamento.
Ele é tecnologia.
É indústria.
É design.
É arquitetura.
É economia.
É trabalho.
E, em alguns casos, é também história.
O futuro de um polo que continua se transformando
A história de Santa Gertrudes não terminou com a fabricação de pisos.
Muito pelo contrário.
A indústria continua evoluindo.
Novos formatos surgem.
Novos acabamentos chegam ao mercado.
A impressão digital amplia possibilidades.
Grandes superfícies modificam projetos.
Texturas ganham importância.
A reprodução de materiais naturais se torna cada vez mais sofisticada.
E o design brasileiro ganha espaço.
Em 2025, por exemplo, a sede da ASPACER, em Santa Gertrudes, recebeu a cerimônia do 10º Prêmio Nacional de Design de Cerâmicas para Revestimento, reunindo categorias como porcelanato, pisos e revestimentos cerâmicos, superfícies inovadoras e brasilidade. O evento evidencia como o polo também participa do debate contemporâneo sobre design e inovação.
A cidade que começou produzindo telhas participa hoje de uma indústria que discute design, tecnologia, inovação e tendências.
Essa talvez seja a melhor maneira de entender sua trajetória.
Santa Gertrudes não abandonou sua história. Ela evoluiu a partir dela.
Uma história que continua sendo escrita
Talvez seja impossível olhar para um porcelanato da mesma maneira depois de conhecer essa história.
Porque aquela peça deixou de ser apenas uma peça.
Ela passou a representar uma cadeia.
Uma cadeia que começa na terra, passa pela ciência, pela indústria, pelo design e pela logística, e termina dentro de um ambiente que fará parte da vida de alguém.
E talvez seja justamente isso que torna Santa Gertrudes tão especial.
Uma pequena cidade do interior paulista tornou-se referência porque encontrou, em seu próprio território, uma vocação que foi sendo aperfeiçoada durante gerações.
Primeiro vieram as telhas.
Depois os lajotões.
Depois os pisos.
Depois os revestimentos.
Depois o porcelanato.
E, junto com eles, vieram tecnologia, conhecimento, design, indústria e reconhecimento.
Em 2018, Santa Gertrudes tornou-se oficialmente a Capital da Cerâmica de Revestimento do Estado de São Paulo.
Em 2024, passou a ser oficialmente a Capital Nacional da Cerâmica de Pisos e Revestimentos.
Mas a história não termina no título.
Porque a indústria continua produzindo.
A tecnologia continua avançando.
Os arquitetos continuam criando.
As pessoas continuam construindo.
E novos revestimentos continuam surgindo.
A história continua acontecendo.
E nós estamos aqui para contar.
BARATÃO PISOS
Onde o porcelanato acontece.
Este conteúdo inaugura a Revista BARATÃO PISOS, um espaço dedicado a pisos, porcelanatos, revestimentos, arquitetura, decoração, tecnologia, indústria, cultura e tendências.
Porque acreditamos que escolher um revestimento começa muito antes da compra.
Começa pelo conhecimento.