Entre os dias 21 e 25 de setembro, os olhos da indústria mundial de revestimentos estarão voltados para Bolonha, na Itália.
É lá que acontece a CERSAIE 2026, uma das principais feiras internacionais dedicadas à cerâmica, revestimentos e ambientes de banho. A 43ª edição reúne fabricantes, arquitetos, designers e profissionais de diferentes países para apresentar produtos, tecnologias e novas ideias para o ambiente construído.
Mas por que uma feira realizada a milhares de quilômetros do Brasil interessa a quem está construindo ou reformando uma casa?
Porque muitas das tendências que aparecem primeiro nesses grandes eventos acabam chegando aos projetos, às lojas e às casas nos anos seguintes.
Da cerâmica ao conceito de superfície
Uma das transformações mais interessantes do setor é que o revestimento deixou de ser visto apenas como acabamento.
Hoje, ele participa diretamente da arquitetura.
Grandes formatos, superfícies que reproduzem pedras naturais, texturas, efeitos tridimensionais e diferentes possibilidades de acabamento fazem com que o porcelanato possa assumir um papel muito maior dentro de um projeto.
Não se trata mais apenas de escolher “um piso bonito”.
A superfície passou a ajudar a definir a personalidade do ambiente.
Esse movimento aparece com força na programação e na apresentação da CERSAIE, que tem como conceito em 2026 justamente “A space for architectural design” — um espaço para o design arquitetônico.
A tecnologia está ficando cada vez menos visível
Pode parecer contraditório, mas uma das grandes conquistas da tecnologia cerâmica é justamente fazer com que ela desapareça aos olhos.
Quando um porcelanato reproduz uma pedra natural com grande fidelidade, o consumidor enxerga primeiro a aparência.
Por trás dela, entretanto, existe uma cadeia tecnológica envolvendo desenvolvimento gráfico, impressão digital, controle de produção, acabamento e pesquisa de materiais.
A impressão digital, por exemplo, revolucionou a maneira como desenhos podem ser aplicados às superfícies cerâmicas.
O resultado é uma quantidade muito maior de possibilidades.
Hoje podemos encontrar revestimentos inspirados em mármores, quartzitos, pedras, madeiras, cimento e outras referências naturais.
A indústria não está simplesmente copiando a natureza.
Está transformando essas referências em uma nova linguagem.
Grandes formatos continuam ganhando espaço
Outro movimento que merece atenção é o crescimento das superfícies maiores.
Quanto maior a peça, menor pode ser a quantidade de juntas aparentes e maior a continuidade visual do desenho.
Isso é especialmente interessante em produtos inspirados em pedras naturais.
Um veio que seria interrompido diversas vezes em peças pequenas pode ganhar muito mais presença em uma superfície maior.
Mas existe um detalhe importante: grandes formatos exigem planejamento.
Transporte, armazenamento, preparação da base e instalação precisam ser tratados com cuidado.
A tecnologia pode produzir uma peça extraordinária.
Mas é a boa execução que transforma essa peça em uma boa obra.
A cerâmica está ficando mais tátil
Durante muito tempo, a evolução dos revestimentos foi observada principalmente pelo que os olhos conseguiam perceber.
Agora, o toque também ganhou importância.
Texturas e acabamentos procuram reproduzir de maneira mais convincente a sensação visual e tátil de pedras, madeiras, tecidos e outras superfícies.
Essa aproximação entre aparência e textura é importante porque ambientes não são experiências exclusivamente visuais.
Nós tocamos as superfícies.
Caminhamos sobre elas.
Sentimos sua temperatura e sua textura.
A arquitetura é também uma experiência sensorial.
E onde entra a sustentabilidade?
Outro tema que ganhou importância definitiva para a indústria é a sustentabilidade.
A discussão deixou de ser apenas sobre o produto final e passou a considerar todo o processo: matéria-prima, energia, água, produção, transporte, durabilidade e descarte.
No Brasil, esse movimento também está presente.
Em Santa Gertrudes, por exemplo, foi lançado em 2026 o Centro de Pesquisa em Resiliência Urbana e Sustentabilidade, iniciativa voltada à pesquisa aplicada e à redução de impactos da cadeia produtiva cerâmica e da construção civil.
Isso mostra que tecnologia e sustentabilidade não precisam caminhar em direções opostas.
A indústria pode produzir melhor justamente porque passou a conhecer melhor seus processos.
O que tudo isso significa para quem está reformando?
Talvez a principal lição da CERSAIE seja simples: o revestimento está deixando de ser apenas um acabamento e se tornando parte da experiência arquitetônica.
Isso significa que o consumidor terá cada vez mais opções.
Mais formatos.
Mais texturas.
Mais possibilidades de combinação.
Mais produtos inspirados na natureza.
E também mais necessidade de informação.
Quanto maior a variedade, mais importante se torna saber escolher.
Não basta gostar de uma foto.
É preciso entender onde aquele produto pode ser utilizado, como deve ser instalado e qual resultado ele pretende produzir.
O futuro da cerâmica pode estar justamente na mistura
Natureza e tecnologia.
Artesanato e indústria.
Tradição e inovação.
Superfícies minimalistas e texturas marcantes.
A cerâmica contemporânea está trabalhando justamente nesse encontro.
E talvez seja esse o aspecto mais interessante de observar quando acompanhamos uma feira como a CERSAIE.
Ela não mostra apenas produtos.
Mostra para onde a arquitetura está caminhando.
E, quando essas tendências chegam ao Brasil, elas encontram uma indústria que já possui enorme relevância internacional.
Segundo dados da ANFACER, o Brasil produziu 817 milhões de metros quadrados de revestimentos cerâmicos em 2025 e permanece entre os maiores produtores e consumidores do mundo.
Ou seja, o futuro da cerâmica não está acontecendo apenas na Itália.
Ele também está sendo construído aqui.
E uma parte importante dessa história acontece muito perto de nós, no Polo Cerâmico de Santa Gertrudes.
Revista Baratão — Estamos onde o porcelanato acontece.